Machismo a meu ver é uma definição que tem de ser vista a partir dos tempos modernos, talvez a revolução industrial seja um bom ponto de partida das conquistas femininas. Eu entendo o machismo como a reação masculina sobre essa nova posição social da mulher.

O Machismo dentro e fora do BDSMVoltando um pouco no tempo e remontando o trajeto evolutivo da humanidade, homem e mulher sempre tiveram papéis diferentes, cabendo ao homem a defesa da prole e a caça e à mulher tarefas compatíveis com sua constituição física, notadamente a reprodução.

A passagem da sociedade tribal para a sociedade civilizada adequou e adaptou hábitos e costumes.

Heranças culturais e movimentos religiosos forjaram sociedades que hoje erroneamente são carimbadas como machistas. É preciso analisar o contexto e o momento histórico em que isso se originou e não como o vemos hoje.

Machismo é um termo relativamente novo que aponta conquistas sociais femininas não reconhecidas por muitos homens. Não é aceitável que a cultura de um povo possa ser vista apenas como machismo, isso é simplista e leviano demais. Muitos outros aspectos têm de ser levados em conta.

Seduz associar isso a todo tipo de opressão à mulher.

Muitas situações condenáveis de violência e agressão atribuídas ao machismo nos dias de hoje são equivocadas, como por exemplo a infibulação (consiste em suturar os dois lados da vulva após a remoção do clitóris e dos pequenos e grandes lábios) que teve suas raízes na era faraônica, assim como a circuncisão, o seu equivalente masculino. Rotular essa prática como machista não me parece correto. Sua origem tem raízes religiosas, culturais e faz parte da identidade de determinados povos; é um rito milenar que antecede as religiões modernas e visava preservar o conceito de união familiar daqueles tempos.

Para deixar isso mais claro, segue aqui uma história narrada pela Dra. Halimatou Bourdanne que é médica na Costa do Marfim, África Ocidental e lida com casos desse tipo onde essa prática é bastante comum. Na narrativa abaixo, é possível compreender que certos comportamentos estão tão enraizados na cultura desses povos que são as próprias mulheres que mantêm viva essa tradição.

A difícil decisão de Howa

Na áfrica ocidental há um grupo étnico que sempre praticou a circuncisão em 100% das suas moças. Este grupo étnico pratica um tipo de excisão que remove o clitóris e os dois pequenos lábios. Esta prática continua apesar de medidas governamentais para erradicá-la. Hoje em dia, é a influência da igreja local que está começando a desafiar esta prática.

O que segue é uma história de uma jovem que se atreveu a resistir a esta prática. Para evitar que seus problemas aumentem, mudamos não apenas o nome dela, mas também o nome do seu país e o nome da sua amiga que escreveu este artigo.

Alguns anos atrás, Howa retornou de um país vizinho à região onde mora. Naquela época, estava na idade de ser circuncidada, mas ainda não estava noiva. De acordo com a tradição, uma moça deve ser circuncidada antes da chegada de seu primeiro bebê, caso contrário, a saúde da criança estará em risco se o clítoris tocar o bebê durante o parto.

Normalmente é a moça que decide e pede para ser circuncidada. Ela vai ao seu pai ou esposo que deve então entrar em acordo com as mulheres mais velhas responsáveis por realizarem as circuncisões. Alguns anos atrás, alguns membros deste grupo étnico tornaram-se cristãos. A questão das circuncisões foi discutida e, tal como o governo, a igreja assumiu uma posição contra esta prática. Em anos recentes, moças jovens cristãs tentaram opôr-se à circuncisão feminina, mas uma após a outra foram finalmente derrotadas. As pressões sociais são muito fortes.

Howa é a única até hoje que manteve este propósito. O que ela sofreu devido à sua decisão é difícil de imaginar por nós que estamos acostumados aos nossos ‘direitos humanos’.

Mas voltando à história… Quando os parentes de sua mãe perceberam que Howa não tinha nenhuma intenção de ser circuncidada, seu tio a prometeu em casamento a um homem não cristão, contra a vontade dela. Ele pensava que, uma vez casada, a circuncisão de Howa seria mais que certa porque o seu marido teria o poder de influenciá-la. No entanto, Howa tinha suas próprias idéias sobre o casamento. Ela também percebeu que esta era uma armadilha e fugiu para se esconder na casa de uns cristãos que a protegiam.

Tudo isto levou a muitas perseguições. Ela apanhou tareia mais de uma vez. Finalmente encontrou ajuda e proteção do governo. Com a ajuda das autoridades locais, foi-lhe permitido voltar para sua aldeia, mas ela preferiu permanecer próximo dos cristãos.

Um ano mais tarde, casou-se com um jovem da igreja. Oito meses depois Howa recebeu a visita de sua mãe. Howa estava grávida nesta época. A sua mãe não podia acreditar que Howa tinha se casado com um cristão e estivesse prestes a ter um bebê sem ser circuncidada antes. Aquilo nunca tinha sido feito no passado e a mãe não queria que a sua filha fosse a primeira a estragar a tradição! Toda a família da parte da mãe ficaria envergonhada.

Howa resistiu à sua mãe em todas as suas tentativas de fazê-la voltar à aldeia de seus pais. Ela tinha receio quanto à sua segurança pessoal – de apanhar tareia – e também da forte pressão de seus pais – insultos, maldições, etc. Durante as semanas antes do parto, a pressão cresceu. A sua mãe levou o problema ao chefe da aldeia para ele o julgar. Howa e seu marido foram chamados para uma reunião com o chefe da aldeia, a mãe e muitas das pessoas idosas. O marido de Howa foi acusado de roubar a sua esposa porque ele não tinha recebido a permissão ou a benção da família da mãe.

A mãe de Howa suplicou e chorou diante do chefe da aldeia, pedindo-lhe que a ajudasse a forçar Howa a ser circuncidada. O chefe da aldeia, no entanto não podia fazer nada pela mãe, por causa da lei da região, que ele conhecia muito bem. Ele aconselhou a mãe a não forçar a sua filha, mas, se necessário, amaldiçoá-la e de fato, deserdá-la. A mãe seguiu o seu conselho e em frente das outras pessoas, ela disse a Howa que se arrependia do dia em que a trouxe ao mundo.

Posteriormente, Howa deu à luz um menino bonito. Toda a comunidade cristã se regozijou. No entanto, soube-se que as pessoas que estavam contra o jovem casal tinham pedido aos talismãs – objetos especiais que acreditam que tenham poderes mágicos – pela vida de Howa, seu marido ou do bebê.

Os parentes de Howa por parte da mãe contactaram depois a família do marido de Howa. Ambos os grupos familiares atuaram juntos contra o jovem casal. Foi-lhes muito difícil para viverem normalmente. Eram freqüentemente ameaçados e insultados. Mais de uma vez, os pais vieram para raptar Howa, mas não tiveram sucesso. Os vizinhos cristãos apoiaram Howa e seu marido, e a Polícia e o governo local vinham para dar proteção, quando solicitada.

As autoridades viram esta tarefa como uma maneira de trazer paz entre os dois grupos. Como o casamento de Howa era oficial e reconhecido pelo Estado, em princípio o governo estava do lado do jovem casal. Os parentes por parte da mãe insistiram que o casamento não era mais válido e exigiram o divórcio e retorno de sua filha. E então, enquanto tudo isto estava a acontecer, o bebê de Howa morreu após uma doença que durou dois dias!

A história ainda continua nos dias de hoje. No momento, Howa voltou para a casa de seu pai para mostrar que ela não tinha sido roubada, mas que decidiu casar com o jovem cristão. Ela ainda não foi circuncidada. Mas uma de suas amigas cristãs foi circuncidada há três dias…

No exemplo acima “tradição e costumes de um grupo étnico” são o agente motivador para essa prática condenável.

Outro típico exemplo são os casos de agressões domésticas, muitas vezes fruto do estresse diário e da tensão que coloca pessoas acima de seu limite suportável.

Estudos comprovam que uma parcela significativa dessas agressões são praticadas por indivíduos com personalidade anti-social ou psicopática.

Pessoas obsessivas engordam a lista dos agressores domésticos e seus motivos são completamente diferentes do entendimento de machismo.

Generalizar esses comportamentos distintos é o “X” da questão.

O que entendo como machismo está bem definido no Dicionário Houaiss:

“comportamento que tende a negar à mulher a extensão de prerrogativas ou direitos do homem”

Essa frase não corresponde ao sentido violento que muitos atribuem porque o machismo não é padronizado. Ele varia na forma e na intensidade de sua exteriorização e como é conceitual, é natural que existam interpretações de todos os tipos.

O SM (sadomasoquismo) e o D/s (Dominação/submissão) a meu ver é uma aceitação do comportamento dominante e “definidor de papéis”. Se ele é desejado dentro desse contexto (contexto esse que legitima uma fantasia), vejo como uma incoerência negá-lo fora para colocar-se diante de uma posição politicamente correta.

Paradoxalmente, o machismo é estimulado e reforçado diariamente em nossa sociedade, seja através de letras musicais como pagodes, axés, funks, e MPB ou pela exposição do produto “mulher objeto” presente em nossos carnavais, revistas masculinas, literatura e programas televisivos.

Qual mulher não se envaidece ao ser um objeto do desejo em um exemplar da playboy?

Essa exposição feminina dá-se pela vaidade, pelo poder econômico e pelo prazer; está presente nos apelos consumistas dos comerciais ou em imagens filmográficas, em revistas femininas e novelas de televisão amplamente consumidas pelo “sexo frágil”.

O machismo é possessão e uma quantidade imensa de mulheres vivem esse papel voluntariamente, gostam ser cuidadas, usadas e protegidas pelo sexo forte. A submissão consentida é o desejo e o reconhecimento dessa posição na sua forma mais explícita.

Aceitar isso é uma questão individual e nem todos os comportamentos “ditos” machistas se encaixam como comportamentos infratores, muitas mulheres preferem essa relação dentro e fora do SM.