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No novo filme de Polanski, palco é espaço de confinamento claustrofóbico

Roman Polanski tem uma obsessão por espaços confinados, especialmente apartamentos. E isso vem desde “O Inquilino” ou “O Bebê de Rosemary”, bem antes de ter vivido em prisão residencial na Suíça. Então, nada mais natural que, depois de ter levado seu estudo espacial para o apartamento do cenário de uma peça, em “Deus da Carnificina”, o próximo passo seja investigar o próprio palco do teatro como um espaço de confinamento claustrofóbico.

É o que ele faz em “A Pele de Vênus”, que estreia nesta quinta. Adaptação da peça de David Ives, o longa se passa, em tempo real, todo dentro de um teatro, onde a atriz Vanda (Emmanuelle Seigner) tenta convencer o dramaturgo Thomas (Mathieu Amalric) a escalá-la como a protagonista de seu próximo espetáculo – por sua vez, uma adaptação do romance de Leopold von Sacher-Masoch que recebe o mesmo título do filme.

Seguindo a máxima de Hitchcock – “se uma peça é boa, não mude, apenas filme” –, Polanski não altera em quase nada o texto original, limitando-se a traduzi-lo do inglês para o francês. Isso, somado à própria locação da trama, torna a qualificação de “teatro filmado” uma crítica tão irônica quanto apropriada – e, em certa medida, elogiosa.

Porque o que a peça de Ives faz é usar a estrutura do próprio teatro para encenar seu discurso sobre sexismo e sua batalha de gêneros. E Polanski usa sua câmera para potencializar – e não modificar – isso.

À medida que o embate entre Vanda e Thomas evolui, fica claro que ela, a princípio vulgar e superficial, sabe mais sobre a obra de Sacher-Masoch – que narra um romance sadomasoquista no século XIX – do que ele. E, quando os dois passam a encenar o texto, a cada crítica que Vanda faz às opções de Thomas, ignorando o sexismo e o preconceito latentes do material – com um homem impondo seus fetiches e concepções sobre a psique feminina –, o jogo de poder entre eles começa a virar e a ganhar várias outras camadas.

“A Pele de Vênus” pode ser visto como o cabo de força entre um roteirista (Thomas) e a diretora (Vanda) que mostra a ele como atualizar e dar vida a seu texto. Ou como o flerte entre um homem e uma mulher que tentam se manter no posto de sedutor, e não de seduzido. Mas é, acima de tudo, uma guerra dos sexos que deflagra como 99% da ficção ocidental consiste em um homem tentando moldar uma mulher a partir do objeto de seu desejo, ignorando todas as nuances e tirando toda a agência dela no processo de afagar seu próprio falo.

A maneira como Ives e Polanski encenam isso é genial, com o roteiro do filme (e da peça original) e o da peça dentro da peça ficando cada vez mais indiscerníveis um do outro, a não ser pelas deixas da trilha de Alexandre Desplat. Isso mostra como a misoginia discutida ali é contemporânea – com a própria carreira de Polanski servindo como exemplo para várias de suas acusações.

Seigner e Amalric se deleitam com um prato cheio para qualquer ator, enquanto o cineasta apenas observa, como quem quer ouvir mais do que dizer. Prova irrefutável de que ele entendeu o texto que encena.

 
Fonte: OTEMPO