Para quem está chegando agora ao universo BDSM, vale primeiro compreender o próprio termo. Aftercare é uma palavra inglesa formada por after, que significa “depois”, e care, “cuidado”. Em uma tradução simples, portanto, significa “cuidado posterior”, ou, no contexto BDSM, os cuidados oferecidos depois da cena.
Neste artigo, emprego o termo em seu sentido mais direto: aftercare é o cuidado dirigido ao bottom após uma prática intensa.
Essa distinção precisa ficar clara porque, durante a cena, TOP e bottom não ocupam posições equivalentes.
O TOP conduz. Ele conhece aquilo que foi negociado, controla os instrumentos, determina a intensidade nos limites acordados, observa as respostas do bottom e sabe até onde aquela prática pode avançar. Cabe a ele conservar a capacidade de avaliação durante todo o processo, justamente porque está na posição de controle.
O bottom vive a experiência por outro ângulo. É ele quem recebe diretamente os estímulos. Pode ter sido imobilizado, submetido à dor consentida, a restrições, comandos, humilhação negociada, medo controlado, estímulos repetidos ou a uma carga física e emocional muito intensa.
Quando a cena termina, portanto, não é o momento de inverter essa relação de cuidado.
O bottom que acabou de atravessar uma experiência intensa não deve ser colocado na posição de ter que confortar, tranquilizar, acariciar ou emocionalmente sustentar o TOP. Ele pode estar justamente no período em que precisa desacelerar, compreender aquilo que sentiu e recuperar-se dos estímulos recebidos.
O aftercare pertence a esse momento.
É responsabilidade do TOP compreender que conduzir uma cena não significa apenas saber iniciá-la, intensificá-la e encerrá-la tecnicamente. Significa também saber devolver o bottom, de maneira segura e cuidadosa, ao estado cotidiano.
Por isso não faz sentido o TOP ser o destinatário do aftercare.
Ele pode terminar fisicamente cansado, naturalmente. Uma cena longa pode exigir força, resistência e concentração. Mas cansaço físico não transforma o TOP em alguém que precise receber do bottom o cuidado pós-cena destinado a quem esteve submetido aos estímulos.
Muito menos faz sentido exigir esse cuidado de um bottom que ainda esteja vulnerável.
Transformar o aftercare em uma troca obrigatória de carinhos ou em uma oportunidade para o TOP também ser acolhido imediatamente depois da prática acaba esvaziando justamente a função daquele momento. O aftercare não é uma recompensa para quem conduziu a cena, nem uma demonstração de gratidão que o bottom deva oferecer ao TOP.
É cuidado pós-cena dirigido a quem recebeu a ação.
Isso não impede que, em outro momento, praticantes demonstrem carinho, afeto ou atenção uma à outra. Naturalmente, relações BDSM também podem envolver amor, companheirismo e reciprocidade. A questão é não confundir essas demonstrações afetivas normais de uma relação com a finalidade específica do aftercare.
No pós-cena imediato, a prioridade é o bottom.
É ele quem acabou de sair da posição de maior exposição aos estímulos, é ele quem pode estar atravessando a transição física e emocional que estamos discutindo ao longo deste artigo e é justamente para ajudá-lo nessa passagem que existe o aftercare.
Esse cuidado pode envolver água, alimento, cobertor, descanso, contato físico, palavras tranquilizadoras, conversa ou simplesmente a presença serena do TOP. Cada bottom reage de uma maneira e, por isso, suas necessidades devem ser conhecidas antes da prática.
Há bottoms que desejam um abraço, outros preferem silêncio. Alguns querem conversar imediatamente, enquanto outros precisam de algum tempo para organizar aquilo que sentiram.
O importante é compreender que o aftercare continua sendo parte da responsabilidade de quem conduziu a cena.
Guardar os instrumentos não encerra essa responsabilidade.
